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A negação

Sabemos que a negação é um mecanismo de defesa bastante primitivo, porque implica diretamente no nosso contato com a realidade. Negar significa dizer “não” ao real, ao mundo que nos circunda. A realidade é uma construção. Há fatos que são objetivos, eventos que acontecem no tempo e no espaço e não podem ser considerados relativos. O que muda para cada pessoa é o sentido e a interpretação que damos dos fatos que nos ocorrem. De um mesmo acontecimento, podemos construir uma miríade de relatos, ideias e percepções. Quando tratamos de negação aqui, pensamos no ato de nos defendermos da vida de maneira mais ou menos inconsciente. Enxergar a realidade doeria muito então, nós construímos uma “ideia” ou fantasia e continuamos vivendo. É claro que custa muito encarar os fatos, mas é preciso lembrar que também se gasta muita energia distorcendo a realidade.

Nessa edição, estamos falando de negação porque esse é um mecanismo muito frequente em famílias abusivas, as famílias dos dependentes químicos. Por um tempo, a pessoa que usa drogas nega o uso e a família também. Todos sabem que há problemas nessa área, mas não se tem coragem de encará-los. Depois, a família percebe e não consegue mais negar, olhando para a pessoa se destruir e para a destruição intrafamiliar. Chega um momento em que todos sabem e enxergam o uso de drogas, conhecem bem seus danos e tentam fazer alguma coisa para mudar.

O momento mais delicado é aquele em que se precisa ir além da droga. Há um momento em que a verdade familiar e os seus segredos precisam vir à tona. Como uma família que ajudamos anos atrás, a dor da filha era evidente, mas não podia ser dita, revelada, porque isso implicaria que a mãe se posicionasse em relação a ela à família. Então, a negação vai além de um mecanismo de defesa inconsciente, torna-se atitude. Negar para não se responsabilizar.

Estamos aqui no campo do silêncio, que é o lugar da violência. Negar e deixar de lado os fatos da violência são as atitudes que perpetuam a dor, impedem a punição e mantém as pessoas na vitimização do agressor. Essa dinâmica acontece todos os dias em nossas famílias em muitos níveis e de muitas formas. A negação, por mais doloroso que seja encarar a realidade, nunca é a estrada de menor dor e melhor resolução dos problemas. A força está em posicionar-nos diante da vida.

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